Trazodona: o antidepressivo que quase ninguém usa como antidepressivo
· Por Dr. João Pedro CastroPsiquiatra · Psicogeriatra · CRM-MG 83920 · RQE 62148 / 66521
A trazodona foi desenvolvida nos anos 1960 e aprovada como antidepressivo nos anos 1980. Quase quarenta anos depois, raramente é prescrita como antidepressivo. A maior parte das prescrições de trazodona no Brasil hoje é off-label, em dose baixa, com função hipnótica. A diferença entre a dose hipnótica e a dose antidepressiva não é só de magnitude; é de mecanismo, e isso explica por que o medicamento se transformou na prática clínica em algo distinto do que foi originalmente.
Dois medicamentos no mesmo comprimido
A trazodona pertence à classe dos SARI (antagonistas e inibidores de recaptação de serotonina), com perfil de receptor que muda significativamente conforme a concentração plasmática. Em dose baixa (25 a 100 mg), o efeito predominante vem do bloqueio de receptores H1 (histamina) e alfa-1 adrenérgicos, com efeito secundário sobre 5-HT2A. O resultado funcional é sedação acentuada, com pouca ação serotoninérgica clinicamente relevante. Nessa faixa, a trazodona se comporta mais como anti-histamínico potente do que como antidepressivo.
Em dose intermediária a alta (150 a 400 mg), a inibição da recaptação de serotonina e o bloqueio mais consistente de 5-HT2A passam a operar em magnitude clínica significativa. É nessa faixa que aparece o efeito antidepressivo, descrito nos estudos pivô que sustentaram a aprovação original. O detalhe importante é que muitos pacientes não toleram bem 300 mg de trazodona em uso contínuo: a sedação fica excessiva, a hipotensão ortostática se acentua, e o ganho de peso pode aparecer.
Esse perfil de tolerabilidade explica em parte por que a trazodona perdeu espaço como antidepressivo de primeira linha quando os ISRS chegaram nos anos 1990. O ISRS produz efeito antidepressivo equivalente em dose única diária, sem a sedação diurna que a dose alta de trazodona costuma produzir. A trazodona migrou então para o nicho que ocupa hoje: dose baixa, função hipnótica, prescrita amplamente fora da psiquiatria.
A trazodona como hipnótico
O uso de 25 a 100 mg de trazodona à noite para insônia tem algumas vantagens reais comparado às alternativas. Não produz dependência no sentido clássico (diferente dos benzodiazepínicos e dos Z-drugs como zolpidem, que mantêm potencial de dependência mesmo com perfil melhor). Mantém arquitetura de sono relativamente preservada, com aumento do sono profundo (N3) em algumas medições. Tem custo baixo no Brasil, e a tolerância ao efeito hipnótico se desenvolve menos do que com Z-drugs em uso prolongado.
Em paralelo, há limitações que vale conhecer antes de considerar a estratégia rotineira. A meia-vida da trazodona é curta (cinco a nove horas), e em alguns pacientes o efeito sedativo se prolonga até as primeiras horas da manhã, com sonolência diurna residual. Hipotensão ortostática é frequente, e em idosos isso significa risco aumentado de quedas. Boca seca, tontura e visão borrada em paciente sensível a anticolinérgico aparecem com facilidade. E há um efeito raro mas grave que merece registro: priapismo (ereção prolongada e dolorosa), descrito em homens em uso de trazodona em incidência baixa mas concreta. Quando ocorre, é urgência urológica.
Para insônia de início (dificuldade de pegar no sono), a trazodona em dose baixa funciona em parcela significativa dos pacientes. Para insônia de manutenção (despertares ao longo da noite ou despertar precoce), o efeito é menos consistente, e a meia-vida curta pode trabalhar contra a estratégia.
Quando a trazodona faz sentido como antidepressivo
Em depressão maior, a trazodona em dose plena (300 a 400 mg ao dia, fracionada ou em formulação de liberação prolongada) tem indicação formal e dados consistentes. Costuma ser usada em alguns cenários específicos: paciente com depressão e insônia importante em que se queira evitar associação de duas medicações; paciente com disfunção sexual prévia em que se queira evitar o perfil dos ISRS (trazodona tem incidência menor de disfunção sexual e às vezes a trata); paciente com ansiedade marcada em que a sedação inicial seja desejável.
A escolha da dose é o ponto frequentemente mal calibrado. Médicos não psiquiatras costumam prescrever 100 a 150 mg de trazodona para depressão e ficar surpresos com a falta de resposta. A dose antidepressiva começa em 150 mg e geralmente precisa chegar a 300 mg para efeito clínico consistente, e o titulação leva semanas, com tolerância progressiva à sedação. Quando o paciente não tolera a dose alvo, faz mais sentido trocar de medicação do que insistir em dose subterapêutica.
Diferenciando do efeito antidepressivo de outras classes
Em paciente com depressão maior em que a insônia é o sintoma central, a estratégia de monoterapia com trazodona em dose plena é alternativa razoável. Em paciente com depressão maior em que insônia é apenas um dos sintomas, a literatura tende a favorecer ISRS (ou outra classe) em dose adequada, com adjuvante para o sono se necessário. A trazodona em monoterapia para depressão moderada a grave tem perfil de eficácia comparável aos ISRS, com diferenças no perfil de tolerabilidade.
Descontinuação
A trazodona produz síndrome de descontinuação leve quando interrompida abruptamente, geralmente menos intensa que paroxetina ou venlafaxina. Em uso prolongado, a retirada gradual continua sendo a estratégia adequada, com redução de 25 a 50 mg a cada uma a duas semanas. Pacientes que tomam dose baixa há anos para insônia frequentemente conseguem retirar sem grandes problemas, especialmente quando se aborda em paralelo a higiene do sono e eventual quadro de base que mantinha o sintoma.
Se você toma trazodona há tempo sem reavaliação periódica, vale uma consulta. A queixa que motivou a prescrição original frequentemente já mudou de natureza, e a estratégia inicial pode não ser a melhor opção atual.
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