Escitalopram: por que virou o ISRS de uso mais frequente
· Por Dr. João Pedro CastroPsiquiatra · Psicogeriatra · CRM-MG 83920 · RQE 62148 / 66521
Entre os antidepressivos disponíveis hoje, o escitalopram ocupa posição interessante. Não é o mais antigo nem o mais barato, mas se tornou em pouco tempo a escolha de primeira linha em vários cenários de depressão e ansiedade. A trajetória da molécula vale ser entendida, porque ajuda a separar o que é vantagem clínica real do que é construção de mercado.
A história farmacológica
O citalopram, lançado nos anos 1990, foi um dos primeiros ISRS depois da fluoxetina. É uma mistura racêmica de dois enantiômeros (S-citalopram e R-citalopram), que são moléculas espelhadas com propriedades farmacológicas distintas. Estudos posteriores mostraram que o S-citalopram (escitalopram) é o enantiômero responsável pela ação antidepressiva, enquanto o R-citalopram contribui pouco ao efeito clínico e pode até interferir negativamente em algumas medidas. A partir desse achado, o laboratório que detinha a patente desenvolveu o escitalopram puro, lançado em 2002.
A controvérsia inicial foi sobre se o escitalopram representava avanço farmacológico real ou apenas estratégia para estender a patente do citalopram. Duas décadas depois, a resposta empírica é parcialmente favorável ao escitalopram. Em meta-análises diretas, o escitalopram apresenta eficácia ligeiramente superior ao citalopram em depressão e em transtorno de ansiedade generalizada, com perfil de tolerabilidade equivalente ou levemente melhor. A diferença não é grande, mas é mensurável.
O que faz dele uma escolha frequente
Quatro características fazem do escitalopram uma opção robusta como primeira linha. A primeira é a dose-resposta relativamente linear na faixa terapêutica (10 a 20 mg ao dia). Diferente de alguns ISRS em que a relação entre dose e efeito é mais complexa, no escitalopram o aumento de dose dentro da janela terapêutica costuma se traduzir em ganho proporcional de eficácia, com aumento previsível de efeitos colaterais. Isso simplifica a titulação clínica.
A segunda é o perfil de interações medicamentosas. O escitalopram é metabolizado por várias enzimas do citocromo P450 (CYP2C19 principalmente, com contribuição de CYP3A4 e CYP2D6), e o medicamento em si é fraco inibidor dessas enzimas. Isso significa poucas interações clinicamente relevantes com outras medicações, o que é vantagem em pacientes idosos com polifarmácia, em pacientes oncológicos em quimioterapia, em pacientes com HIV em tratamento antirretroviral, e em geral em qualquer paciente com lista longa de medicações.
A terceira é a tolerabilidade. Comparado a paroxetina, fluoxetina ou sertralina, o escitalopram costuma ter perfil de efeitos colaterais um pouco mais brando. Náusea inicial é frequente mas geralmente leve, ganho de peso é menor que paroxetina, sedação é menor que paroxetina, ativação é menor que fluoxetina. Não é um medicamento sem efeitos colaterais (a disfunção sexual continua sendo relevante, como em todos os ISRS), mas o saldo costuma ser favorável.
A quarta é a evidência em ansiedade. O escitalopram tem dados robustos em transtorno de ansiedade generalizada, transtorno do pânico, fobia social e TOC. Em alguns desses quadros, especialmente TAG, é considerado primeira linha em quase todas as diretrizes internacionais.
A questão do QT
Em 2011, o FDA emitiu alerta sobre prolongamento do intervalo QT corrigido (QTc) com citalopram em doses altas, com posterior estabelecimento de dose máxima de 40 mg ao dia (20 mg em idosos acima de sessenta anos e em pacientes com fatores de risco cardiovascular específicos). O alerta gerou cautela ampla, e por extensão acabou afetando também a prescrição de escitalopram, com alguns prescritores limitando a dose máxima a 20 mg em todos os pacientes.
Os dados específicos para escitalopram são mais favoráveis que os do citalopram. O efeito sobre o QTc existe, mas é menor em magnitude que o do citalopram em dose equivalente. Em pacientes sem fatores de risco cardíaco específicos (sem cardiopatia, sem distúrbio eletrolítico, sem uso concomitante de outras medicações que prolongam QT), doses de até 30 mg ao dia de escitalopram costumam ser bem toleradas, e doses acima de 20 mg podem ser necessárias em casos selecionados, especialmente em TOC.
Em pacientes com fatores de risco cardíaco, em idosos, em uso de outras medicações que prolongam QT (alguns antibióticos, antiarrítmicos, alguns antipsicóticos), a cautela faz sentido. ECG basal e em controle pode ser razoável em paciente com mais de um fator de risco.
Dose, titulação e tempo de resposta
A dose inicial habitual é 10 mg ao dia, podendo começar em 5 mg em pacientes mais sensíveis (ansiedade marcada, idosos). O aumento para 20 mg costuma ser feito após duas a quatro semanas, conforme tolerância e resposta inicial. O tempo médio para resposta antidepressiva fica em torno de quatro a seis semanas, com resposta completa em oito a doze semanas. Em ansiedade, a resposta pode demorar um pouco mais, especialmente em quadros mais graves.
Pacientes com perfil de metabolização lenta da CYP2C19 (uma fração identificável da população) podem ter níveis plasmáticos mais altos com a mesma dose, e nesses casos doses menores podem ser suficientes ou tolerância pode ser pior. Em paciente com má resposta ou efeitos colaterais marcados em dose baixa, vale considerar essa possibilidade.
Descontinuação
A síndrome de descontinuação do escitalopram é menos intensa que a da paroxetina ou da venlafaxina, mas mais marcada que a da fluoxetina (cuja meia-vida longa atenua o problema). A retirada gradual em decrementos de 5 mg a cada duas a quatro semanas costuma ser bem tolerada. Em pacientes que apresentam sintomas mesmo com retirada gradual, a estratégia de transição para fluoxetina e posterior retirada da fluoxetina é alternativa útil.
Limitações
O escitalopram não é solução universal. Em depressão atípica com fadiga predominante, a fluoxetina ou bupropiona podem render mais. Em depressão com insônia importante e componente ansioso, sertralina ou mesmo paroxetina podem ser melhores. Em transtorno bipolar, qualquer ISRS em monoterapia, incluindo escitalopram, é potencialmente desestabilizador, e o uso só faz sentido com cobertura de estabilizador de humor. Em pacientes com história de não resposta a outros ISRS, mudar para escitalopram pode render menos do que mudar de classe.
Quando o escitalopram é a escolha certa
Em paciente com depressão moderada de primeiro episódio, em paciente com transtorno de ansiedade generalizada, em paciente com TAG e fobia social comórbidas, em paciente em uso de várias outras medicações em que se queira evitar interações, em paciente idoso sem cardiopatia significativa, o escitalopram costuma ser a escolha mais robusta dentro dos ISRS. Em depressão refratária, em depressão atípica, em paciente com cardiopatia significativa em dose alta, outras opções podem render mais.
Se você está iniciando tratamento com escitalopram ou já está em uso e tem dúvidas sobre dose, tempo de resposta ou estratégia de descontinuação no futuro, vale uma conversa estruturada com seu psiquiatra. As decisões individuais costumam render mais do que aplicar protocolo geral.
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