Insônia crônica e saúde mental: o que veio primeiro?
· Por Dr. João Pedro CastroPsiquiatra · Psicogeriatra · CRM-MG 83920 · RQE 62148 / 66521
Insônia é o transtorno do sono mais prevalente na população adulta. Atinge 10 a 15% das pessoas em forma crônica. Vai além de noite ruim. Insônia persistente sobe o risco de depressão, ansiedade, hipertensão, diabetes e declínio cognitivo. Tratar como sintoma menor é erro clínico recorrente.
A relação entre insônia e transtornos mentais é de mão dupla. Insônia pode ser sintoma precoce de depressão ou ansiedade, antecipando o quadro completo em semanas ou meses. E privação crônica de sono altera o funcionamento do córtex pré-frontal e da amígdala, sobe a reatividade emocional, derruba a capacidade de regular afeto. Dormir mal piora a saúde mental. Saúde mental ruim piora o sono. O ciclo se retroalimenta.
Na prática clínica, é comum encontrar paciente que usa benzodiazepínico há anos para dormir. Eficaz no curto prazo, perde efeito com o tempo, gera dependência, sobe o risco de queda e de comprometimento cognitivo, sobretudo em idoso. Revisar e racionalizar essas prescrições é parte central do trabalho psiquiátrico.
O tratamento de primeira linha para insônia crônica, segundo as diretrizes internacionais, é a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia, conhecida como TCC-I. Atua sobre os hábitos e as crenças que perpetuam o problema. Restrição de tempo na cama. Controle de estímulos. Higiene do sono. Reestruturação cognitiva sobre o ato de dormir.
Quando a medicação é necessária, há opções mais seguras que os benzodiazepínicos clássicos. Moduladores de melatonina. Antagonistas de orexina. Antidepressivos sedativos em dose baixa. A escolha depende do perfil do paciente, das comorbidades, da meta terapêutica. Não existe remédio universal para insônia.
Se você dorme mal há mais de três meses e isso já cobra preço em energia, humor ou rendimento, vale uma avaliação especializada. Existem causas tratáveis que ficam invisíveis sem investigação direcionada, e soluções que vão além do clichê do chá com celular desligado.
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