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    Saúde Mental7 min de leitura

    Autolesão não suicida: o que está por trás de quem machuca o próprio corpo

    · Por Dr. João Pedro CastroPsiquiatra · Psicogeriatra · CRM-MG 83920 · RQE 62148 / 66521

    Autolesão não suicida (a sigla técnica é NSSI) é a prática deliberada de causar dano físico ao próprio corpo sem intenção de morte. Inclui corte, queimadura, soco em si mesmo, arranhão até sangrar, arrancar cabelo (tricotilomania), entre outros. Contra o senso comum, quem se autolesiona em geral não está tentando morrer. Está, paradoxalmente, tentando se manter vivo dentro de uma dor psíquica que parece insuportável.

    A função psicológica varia. Em parte dos pacientes, a autolesão funciona como regulação emocional. Sob ansiedade, raiva ou desconforto intolerável, o ato produz pico de adrenalina e endorfina, e troca o alvo da angústia (de emocional para físico e controlável). Vem alívio. Em outros, funciona como punição: a pessoa carrega vergonha, culpa e desejo de autopunição que o comportamento satisfaz. Em outros ainda, é uma forma de "sentir algo" em contexto de dissociação ou dormência emocional.

    É mais frequente em adolescentes, especialmente meninas, mas ocorre em todas as idades. Cerca de 15 a 35% dos adolescentes praticam alguma forma de NSSI em algum momento. Apenas uma fração mantém padrão recorrente suficiente para configurar quadro clínico (o critério atual exige comportamento recorrente por pelo menos um ano).

    Está fortemente associada a transtornos de internalização: depressão, ansiedade, TEPT, transtorno de personalidade borderline, transtorno alimentar, isolamento social. NSSI ainda não é diagnóstico separado nas classificações principais. Funciona como sinal: aponta para um transtorno mental subjacente que precisa de avaliação.

    A coexistência com transtorno de personalidade borderline merece destaque. Pacientes borderline frequentemente relatam que a autolesão é a única forma que conhecem de aliviar a angústia emocional. O comportamento se torna estratégia de sobrevivência. Prejudicial, e funcional naquele momento. Sem entender essa lógica, qualquer tentativa de "convencer a parar" fracassa.

    Existe hipótese neurobiológica de "analgesia induzida por estresse". Sob estresse agudo, o corpo libera opioides endógenos que produzem analgesia temporária. Mecanismo que provavelmente foi adaptativo em contextos de perigo (permitir funcionamento apesar de ferimento), mas que em contexto psicológico contemporâneo reforça o comportamento patológico.

    O tratamento parte de psicoterapia. Terapia Dialética Comportamental, desenvolvida originalmente para borderline, tem evidência forte. O eixo do trabalho passa por validar a dificuldade emocional (reconhecer que o sofrimento é real e intenso), educar sobre regulação emocional e desenvolver habilidades de tolerância ao sofrimento.

    Medicação pode entrar quando há diagnóstico psiquiátrico de base. Tratar depressão, ansiedade ou impulsividade reduz o impulso à autolesão. Sem psicoterapia, no entanto, medicação isolada costuma ser pouco eficaz, porque não toca no eixo de regulação emocional.

    Se você se autolesiona, ou conhece alguém próximo que faça isso, procurar avaliação e terapia não é exagero. É o que abre a porta para outras formas de regular dor emocional, formas que não exigem que você cobre esse preço do próprio corpo.

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