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    Saúde Mental7 min de leitura

    Autolesão não suicida: ferramenta de regulação emocional patológica

    1 Mar 2026 · Dr. João Pedro Castro

    Autolesão não suicida (NSSI — Non-Suicidal Self-Injury) é a prática deliberada de machucar intencionalmente o próprio corpo sem intenção de morte. Inclui cortes, queimaduras, bater em si mesmo, arranhões até sangrar, arrancar cabelos (tricotilomania) e outros comportamentos que causam dano tecidual. Contrário à crença comum, pessoas que se autolesionam tipicamente não estão tentando se matar — estão, paradoxalmente, tentando se manter vivos.

    A função psicológica da autolesão é variada. Para alguns, ela funciona como regulação emocional — o indivíduo está sob ansiedade, raiva ou desconforto emocional intolerável, se machuca, e o pico de adrenalina, endorfinas e a mudança do alvo da angústia (de emocional para físico e controlável) oferece alívio. Outros usam para punição — trazem vergonha, culpa e desejo de autopunição que o comportamento satisfaz. Ainda outros o fazem para 'sentir algo' em contexto de dissociação ou dormência emocional.

    A autolesão é mais frequente em adolescentes, especialmente meninas, mas ocorre em todas as idades. Aproximadamente 15-35% dos adolescentes praticam alguma forma de NSSI em algum ponto, mas apenas uma fração continua em padrão recorrente que justifique diagnóstico clínico (que exige comportamento recorrente por pelo menos um ano).

    A autolesão é fortemente associada a transtornos de internalização: depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, transtorno de personalidade borderline, transtorno alimentar e isolamento social. Não é, em si, um diagnóstico separado no DSM-5, mas sim um comportamento que sinaliza outro transtorno mental subjacente.

    A comorbidade com transtorno de personalidade borderline merece menção especial. Pacientes borderline frequentemente reportam que NSSI oferece a única forma conhecida de aliviar a angústia emocional intolerável. O comportamento se torna uma estratégia de sobrevivência — prejudicial, mas funcional naquele momento.

    Do ponto de vista neurobiológico, há hipótese de que a autolesão oferece 'analgesia estresse-induzida' — quando o corpo está sob estresse agudo, libera opioides endógenos que criam analgesia temporária. Esse mecanismo pode ter sido adaptativo em contextos de perigo (permitir funcionamento apesar de ferimentos), mas em contexto psicológico moderno, reforça o comportamento patológico.

    O tratamento envolve, primariamente, psicoterapia focada em desenvolvimento de estratégias alternativas de regulação emocional. Terapia Dialética Comportamental, desenvolvida originalmente para transtorno borderline, é especialmente efetiva. A abordagem envolve validação da dificuldade emocional (reconhecendo que o sofrimento é real e intenso), educação sobre regulação emocional e desenvolvimento de habilidades de tolerância ao sofrimento.

    Medicação pode auxiliar se houver diagnóstico psiquiátrico subjacente (tratamento de depressão, ansiedade ou impulsividade pode reduzir o impulso à autolesão). Mas medicação sozinha, sem terapia, é frequentemente ineficaz.

    Se você se autolesiona ou conhece alguém que o faz, a busca por avaliação e terapia é essencial. O comportamento, embora sinalize sofrimento intenso, é tratável — e existem formas muito mais efetivas de regular emoções intensas que machucar a si mesmo.

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